
A ciência esquece para que ela se torne possível // a ciência esquece para que ela se torne [o] impossível. Esse é leitmotiv do vídeo-textura que chamei de "Pedro Barbosa e o esquecimento da ciência". No primeiro plano (Layer, camada) temos as figuras de Heidegger e Barbosa que se colocam diante do vídeo de Horkay, The Woman With the Fork & Knife Disaster. O vídeo transita dialogicamente pela [A] ideia de Georges Didi-Huberman (2007). La invención de la histeria: Charcot y la iconografia fotográfica de La Salpêtrière, [B] o Seminário 8 de Lacan, A transferência, [C] os estudos de Koyrè sobre a questão da ciência moderna e [D] a crítica heideggeriana ao conceito de ciência, [E] na leitura de Bento Prado, pela entrevista de Heidegger ao Prof. Wisser e [F] na interpretação de Stein, Dantas e Moreira. Um quadrado mágico certamente, mas que se expressa na tessitura sonoro-visual do vídeo-conceito-textura.
Heidegger e Barbosa se encontram aqui como estruturas complementares. A crítica à ciência e à técnica recebe como estrutura complementar a ideia de uma ciberliteratura e de uma exosemiótica. Enquanto isso, uma narrativa se desenvolve no vídeo de Korkay no pano de fundo da vídeo-textura: sobreposição de algarismos e signos, a imagem da mulher oriental permeada de exo-códigos e o grupo que reage simetricamente diante de um ritual. A ciência esquece para que ela se torne possível/impossível - esquecer me leva a re-coletar, me leva a repetir a linguagem que já construí de forma a re-encontrar o mesmo. É nisso que a ciência se distingue das manifestações ordinárias. Na audibilidade discreta do plano de fundo temos Fischer falando um texto em alemão sobre a origem da obra de arte. Diz-se que a construção da realidade é apenas uma referência simples... Simples? |
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O choque das bolas de bilhar denotam o movimento analítico da ciência que esquece, posto que é justamente por isso que ela se prende tão firmemente a empiria. Como confiar na memória, se ela nos enagana a todo momento? É o jogo da ciência que joga sem ter um sujeito. É neste sentido que entendo quando Lacan nos diz que a ciência é um saber sem sujeito (S13. O objeto da psicanálise). Pensar e ciência se encontram então estruturados disjuntamente, assim como o saber e a verdade. A ciência dirige-se ao saber e com justeza, enquanto o pensar visa à verdade. Na antípoda da ciência (pensamento que calcula) encontramos o pensar filosófico (pensamento que medita). E isso não significa uma recusa da ciência, mas a possibilidade de uma compreensão desta de forma mais profunda ainda. E justamente quando descobrimos o encontro entre a computação e a poesia em uma ciberliteratura é que a possibilidade se torna mais pregnante.
Ao trabalharem a questão do pensar filosófico, Dantas e Moreira dizem que o pensamento é aquele que é capaz de sentido, colocando-se em oposição à formulação e ao cálculo.É a partir dessa oposição que eles trazem a famosa frase de Heidegger: a ciência não pensa. Heidegger, ao ser interrogado sobre esta sua afirmação diz que ela não se constitui em uma afirmação, mas em uma pura e simples constatação, em função de que a natureza da ciência é examinar objetos da realidade, calculá-los e dimensioná-los e jamais realizar proposições reflexivas sobre eles. O pensamento da ciência é um tipo especial de pensamento que identifica e recolhe dados, calcula-os, organiza-os e classifica-os. Dantas e Moreira se apoiam em Stein: "É por isso que, nessa tarefa, os computadores substituem, com progressiva eficiência, a mente humana. Quanto mais matematizável o universo, tanto mais cientificamente conquistável. Essa conquista a filosofia jamais poderá disputar. Se ela o pretendeu algum dia, sob este ponto de vista, ela terminou hoje como filosofia. [...]" (STEIN, 2002, p. 25). Stein trabalha neste texto três formas do pensar em Heidegger. Enquanto o primeira forma de pensar me conduz a uma compreensão negativa, a entender uma relação entre a pedra, o animal, o homem e o mundo me conduzindo a um jogo no qual o homem se constitui em formador de mundo em uma peculiar posição do existir, na geração de problemas cada vez mais complexos, na busca cada vez mais aguda de transcendência, resultando finalmente em uma radical alienação da sensibilidade (o que nos faz pensar no estádio do espelho de Lacan). Na segunda forma do pensar, o filósofo encontra a lógica como a consumação da metafísica: pensar é construir proposições que sejam capazes de determinar algo acerca do mundo ou de si mesmas. É nesse sentido que ele nos diz que a lógica é um tipo singular do pensar - o que observamos - é pensar através de signos que se estruturam como legi-signos (Peirce): é pensamento notação. Então, será sobre o império da lógica (de Leibniz e Russell) que a história da metafísica se consolida e se consuma, como algo supreendente certamente: como ciência. Existirá ainda, de acordo com a análise de Stein, uma terceira forma de pensar. Citando Heidegger e, acerca da necessidade de encararmos esta terceira forma de pensar, ele diz: o "mais estranho, em nosso estranho tempo, é que ainda não pensamos" (Stein, 2002, 35). O pensar se assemelharia a construir uma moldura - não um isto ou um aquilo, mas o encontro, digamos de forma muito mal articulada ainda, com uma estrutura, uma moldura daquilo que já sempre esteve presente, mas não percebido, porque processo. Ora, se a tradição metafísica nos diria que falamos porque pensamos, Stein nos mostra que a fenomenologia hermenêutica diz que o ser humano pensa porque fala, ligando-o ao exercício da mão humana que constrói, que modela a realidade. Isso nos lembra o dizer de Xenon: se mãos bois tivessem, também grafariam.Será assim, a partir deste ponto de vista que qualquer obra da mão se apóia no pensar. Aqui eu encontro novamente o meu esforço reflexivo que ficou por completar na proposição de que a im@gem pensa. A im@gem pensa porque ela é o quadro, a moldura, a Bildung que está no caminho de um pensar.
Luís Carlos Petry. Pesquisador e professor no Programa de Pós-graduação em Tecnologias da Inteligência e Design Digital (MD) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Brasil (PUCSP). Filósofo e artista digital. Formação no Liceu de Artes Casa Velha (Novo Hamburgo, RS). Formação em Filosofia Hermenêutica com Ernildo Stein (UFRGS/PUCRS). Formação em psicanálise no Centro de Estudos Freudianos do Brasil. Doutor em Comunicação e Semiótica (2003), pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUCSP. Pesquisador do NuPHG, Núcleo de Pesquisa em Hipermídia e Games da PUCSP e do Cedipp (ECA-USP), Centro de Comunicação Digital e Pesquisa Partilhada.