
Quando o vento, voltando-se // bruscamente, // urra nas vigas da cabana e o tempo // quer // tornar-se aborrecido...
Heidegger diz que três perigos ameaçam o pensar. O bom perigo e por isso benfazejo é // a vizinhança do poeta que canta.
O mau perigo e por isso mais agudo // é o // pensar mesmo. Deve pensar contra si // mesmo, // o que apenas raramente consegue.
O pior perigo e por isso confuso é o // filosofar.
Esta é a estrutura textual da paisagem sonora "os perigos que ameaçam o pensar".
O final da textura-sonora apresenta, como uma espécie de ruído de fundo, o som do vento que começa a soprar, a aborrecer a audibilidade. Repetir, repetir, para recordar e finalmente elaborar. Os perigos que ameaçam o pensar são repetidos e escutamos os ecos de sua ação, mas a elaboração somente pode vir à tona quando nós nos deixamos, finalmente, nos levar pelo som aborrecido do vento. O plano de fundo do vídeo-textura faz uma referência a imagem conceitual do Labirinto 2000, intitulada "Verdade". A esta foram acrescidos os efeitos de uma distorção que pulsa conjuntamente com a batida rítmica e, a animação de um Cross-cap realizada por Michel Siboni. Entre esses dois elementos temos o vídeo de uma entrevista com Heidegger , trabalhado com os filtros do Postworkshop, passando em com uma opacidade variável entre 5 e 15 por cento - aqui, esta presença tem um sabor de fantasma. |
||
Quando o vento começa a soprar, mesclando ao final dos dizeres, a imagem de Istvan Horkay é projetada em primeiro plano, sofrendo uma distorção (pixelização) em seu rosto. Por outro lado, na imagem que forma a textura conceitual "os perigos que ameaçam o pensar", a imagem de Horkay aparece em primeiro plano. A textura-conceitual Verdade é submetida a uma fusão com o fundo sígnico, base da indicação dos vídeo-conceitos. Sobre ela e mesclada parcialmente, temos a imagem do andarilho da Floresta Negra. O fundo cresce do seu inferior para o seu superior, indicando que se trata de uma construção em movimento.
Existe um elemento que eu considero enigmático na imagem da pessoa de Horkay, a qual tem a responsabilidade de suscitar a sua re-utilização no Labirinto. Trata-se da atitude séria e, um pouco melancólica da fisionomia que me faz pensar na posição particular da melancolia do gênio em Aristóteles. Seu ápice ou seu punctum, como diria Barthes, encontra-se na pose que a mão possui, sustentando levemente uma esfera reflexiva. O seu caracter enigmático incita a imaginação de uma pose de mãos ao estilo de Dürer.
Luís Carlos Petry. Pesquisador e professor no Programa de Pós-graduação em Tecnologias da Inteligência e Design Digital (MD) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Brasil (PUCSP). Filósofo e artista digital. Formação no Liceu de Artes Casa Velha (Novo Hamburgo, RS). Formação em Filosofia Hermenêutica com Ernildo Stein (UFRGS/PUCRS). Formação em psicanálise no Centro de Estudos Freudianos do Brasil. Doutor em Comunicação e Semiótica (2003), pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUCSP. Pesquisador do NuPHG, Núcleo de Pesquisa em Hipermídia e Games da PUCSP e do Cedipp (ECA-USP), Centro de Comunicação Digital e Pesquisa Partilhada.