
Cantar e pensar são troncos vizinhos do poetar. Jamais em uma língua o pronunciado é o dito.
O que se diz permanece esquecido, por detrás daquilo que é dito no que se ouve.
Mas, o caráter poiético do pensar é ainda oculto // Onde lê se mostra, assemelha-se por // muito //
tempo à utopia de um meio-poético // entendimento.
A poesia do ser indica perpendicularmente a sede o homem e a fonte. Lacan sorve a água que o poetar da Floresta faz jorrar nas noites de primavera e, com isso, alcança, ao mesmo tempo, esclarecer e desmontar a relação entre desejo e lógica: inconsciente - poetar.
A textura sonora organiza o ritmo do vídeo-textura na forma de uma batucada de samba que não chega até o seu ápice. Não estamos aqui nem ali - residimos no ICs. Ao fundo temos um vídeo em sépia com uma fala de Heidegger. Todos os frames dos vídeos que aqui somam na textura foram individualmente processados, frame by frame com o Postworkshop. Como representante do desejo o jovem artista realiza seu movimento, em um misto de dança e êxtase. A fotografia de Horkay materializa-se ao fundo na perspectiva de uma persona enigmática e paterna. A imagem do fundo e duplicada e submetida a um filtro que a transforma em retículas esféricas. Elas realizam o movimento de Zoom a partir de uma ampliação prévia original. A referência à psicanálise na paisagem sonora é modelar: Magritte e a psicanálise são troncos vizinhos da fenomenologia hermenêutica: Feldweg. |
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Na imagem da textura-conceitual, "cacos do desejo e da lógica", encontra-se absorvido no fundo sígnico, ocultando-se, a imagem do Jovem Heidegger. Tal como no que se diz permanece esquecido, por detrás daquilo que é dito no que se ouve, no que se vê resta oculto aquilo que se grafa no que se pinta. Pintar é irmão do dizer. Então se a lógica do desejo se faz presente no vídeo-textura, a figura do duplo toro kleiniano não pode deixar de estar aí, como que em um segredo inconfessado. Desejo!? O jovem artista mostra isso no instante de seu movimento, como um fantasma que emerge da claridade ainda remanescente do rosto do jovem filósofo. Se cantar e pensar são troncos vizinhos do poetar e, se jamais em uma língua o pronunciado é o dito, talvez eu possa aqui também dizer: dançar - lembrando-me dos diálogos do filósofo com o mestre Zen (Nô). Horkay é convidado a participar novamente em um ato de confessado entusiasmo com o seu trabalho. A coragem das camadas da imagem nasce de um impulso que nos joga na direção de buscar o poetar pelo graphéin.
A membrana rósea da pele // e os poros imploram // suor e lágrimas // e o vigor surrado do horizonte indica // perpendicularmente //
a sede do homem // e a fonte (Jorge Henrique Schefell).
Luís Carlos Petry. Pesquisador e professor no Programa de Pós-graduação em Tecnologias da Inteligência e Design Digital (MD) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Brasil (PUCSP). Filósofo e artista digital. Formação no Liceu de Artes Casa Velha (Novo Hamburgo, RS). Formação em Filosofia Hermenêutica com Ernildo Stein (UFRGS/PUCRS). Formação em psicanálise no Centro de Estudos Freudianos do Brasil. Doutor em Comunicação e Semiótica (2003), pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUCSP. Pesquisador do NuPHG, Núcleo de Pesquisa em Hipermídia e Games da PUCSP e do Cedipp (ECA-USP), Centro de Comunicação Digital e Pesquisa Partilhada.