
Nós chegamos demasiado tarde para os deuses e demasiado cedo para o Ser. O homem, enquanto poema começado do Ser apresenta sua essência em situações da mais singela simplicidade. Este vídeo é de uma estrutura absolutamente simples e, ao mesmo tempo, de uma grande profundidade..., tanto pelo movimento-vida-dança do artista, como pelas demais estruturas que dialogam com a característica vibrante da textura-sonora composta por Bairon.
Esta vídeo-textura marca o meu contato com o trabalho artístico-poético de Jae-Suk Huh, da Universidade da Coréia do Sul. A dança com máscara em slow motion, intitulada Désir apresenta o poema começado do Ser que é o homem. Sob o fundo retrabalhado do vídeo, a efígie de Zeus se manifesta e é posteriormente substituída pelo desenho do homem vitruviano. O obscurecimento do mundo não atinge nunca a luz do Ser. A manifestação da sombra do sujeito abre a possibilidade da topofilosofia, a qual se manifesta pelo toro-klein que se anima em contraponto com a dança do artista. Pensar é a limitação a um pensamento, que em algum tempo, como uma estrela no céu do mundo, permanece fixo. A dança do desejo manifesta uma coragem do pensar na experiência do Ser, a qual se manifesta na torção rubro-topológica. |
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O filósofo lança o seu olhar para o artista que mostra a dança do pensamento na busca de um encontro com a experiência do Ser. Não posso deixar de pensar no que Heidegger diz: "então surgue a linguagem do destino". Em muitos momentos eu penso que o destino do homem, ao qual muitas vezes ele resiste bravamente, é a arte. É neste campo de batalha que os antagonistas podem se colocar de forma bemfazeja. Trata-se da estrutura do diálogo com o outro, do debate e, do Agon, como um dos modos do jogo da verdade. Ao fundo como um contraponto dos deuses surge a figura do humano, plasmada pela efígie do filósofo Ernildo Stein, com o qual fiz a minha formação em filosofia.
Na textura-conceitual "demasiado tarde...", sob o fundo semiótico, eu plasmo a imagem do jovem Heidegger. A palavra poética escreve o seu rosto em uma estrutura multiforme. Seu olhar está voltado para o jovem artista que dança a dança do desejo, tendo ao fundo de si a máscara de Zeus. A felicidade aqui reside na dupla máscara: enquanto o jovem artista possui uma máscara em seu rosto, o que o joga para junto dos deuses, seu corpo faz o movimento que o projeta em direção ao ser. Como Heidegger disse na experiência do pensar, aqui temos um poema começado! Há uma verdade a ser alcançada ainda: demaisado cedo, demasiado tarde ...
Luís Carlos Petry. Pesquisador e professor no Programa de Pós-graduação em Tecnologias da Inteligência e Design Digital (MD) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Brasil (PUCSP). Filósofo e artista digital. Formação no Liceu de Artes Casa Velha (Novo Hamburgo, RS). Formação em Filosofia Hermenêutica com Ernildo Stein (UFRGS/PUCRS). Formação em psicanálise no Centro de Estudos Freudianos do Brasil. Doutor em Comunicação e Semiótica (2003), pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUCSP. Pesquisador do NuPHG, Núcleo de Pesquisa em Hipermídia e Games da PUCSP e do Cedipp (ECA-USP), Centro de Comunicação Digital e Pesquisa Partilhada.