
A estrutura do ser é topológica. Quando o catavento canta na janela da cabana, em uma tempestade..., é o clima visual que é dado ao vídeo. De certa forma, palavra falada e imagem aqui andam muito próximas, mesmo que isso possa indicar um abismo de representabilidade efetiva. A vídeo-textura preparao o navegante, o andarilho, o argonauta, para o encontro mais próximo com a estrutura do dizer e da demanda do Labirinto.
O elemento imagético aqui é indicial e corresponde e obedece à matriz verbal que Santaella descreveu, ainda que eles ensaiem uma certa rebeldia. Narciso é campinha e flor e mito -tudo isto ao mesmo tempo. Buscando acompanhar o texto, a sequência imagética do vídeo busca ao mesmo tempo ambientar e complementar o que se diz no texto. De certo modo esta conjunção denuncia a timidez que acompanhou durante a produção deste vídeo. Somente quando o áudio ultrapassa a metade de sua duração é que ele realmente mostra os efeitos que o pensamento de Heidegger produziu nos sujeitos. |
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A textura-conceitual intitulada a estrutura do ser é topológica ao mesmo tempo que mostra, esconde algo. Oculto sob a história de sua construção e revelado pelo pensamento que busca uma retroação do processo, eu encontro outra poesia que vem a somar-se sempre à de Heidegger. Trata-se da poesia de J.Ruas, pseudônimo de Ayrton Sant'Anna. A poesia é apresentada em um dos áudios presentes no CD-ROM que acompanha o livro de Bairon, Texturas sonoras: "Há um não sei quê de qualquer coisa na ausência das origens. Bem, não sei se já sentistes, que no recôndito da alma vive, uma saudade estranhamente triste, de tudo o quanto não existe".
Durante o processo de construção desta textura-conceitual eu não podia deixar de pensar nesta poesia de J.Ruas. No primeiro plano o caminhante da Floresta Negra, dissolvido nos mar sígnico do fundo. Em segundo plano está a figura topológica do toro, uma das tantas modeladas por mim para este e outros projetos e exercícios. Imerso na malha dos signos, por detrás do toro, o rosto do jovem Heidegger se encontra oculto e diluído. Ele soma, mas é impedido de destacar-se, assumindo assim um lugar que é o de manifestar-se somente com todos os demais conjuntamente. Este é o efeito de uma torção, de renunciar para existir com o outro: meditação, pobreza, uma simples rosa.
Luís Carlos Petry. Pesquisador e professor no Programa de Pós-graduação em Tecnologias da Inteligência e Design Digital (MD) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Brasil (PUCSP). Filósofo e artista digital. Formação no Liceu de Artes Casa Velha (Novo Hamburgo, RS). Formação em Filosofia Hermenêutica com Ernildo Stein (UFRGS/PUCRS). Formação em psicanálise no Centro de Estudos Freudianos do Brasil. Doutor em Comunicação e Semiótica (2003), pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUCSP. Pesquisador do NuPHG, Núcleo de Pesquisa em Hipermídia e Games da PUCSP e do Cedipp (ECA-USP), Centro de Comunicação Digital e Pesquisa Partilhada.