Apresentação e historicidade do projeto

Com esta proposta eu proponho o resgate de um trabalho de pesquisa que muito desenvolvi durante a segunda metade da década de 1890 e durante a década de 1990: fichamento de leitura para fins de banco de dados digital. Durante aqueles anos eu montei um banco de dados com elementos classificados da minha leitura em geral, dentro da psicanálise, da filosofia e da lógica. O meu tema predileto, o meu "brinquedo preferido" como costumava dizer, eram os Seminários de Jacques Lacan. Lacan é um autor fascinante quando nos aprofundamos na leitura de seu Seminário e quando conseguimos acompanhar o seu esforço lógico-formal, designado por ele, em um dado momento, de "matematização do real".

Minha aventura com o banco de dados digital do pensamento de Lacan começou quando, em 1988 eu me dei conta de que Lacan, no decorrer de trinta anos de Seminário, trabalhava um conceito de verdade que sofria mutações, que se modificava de uma ponta a outra histórica. Foi então que me coloquei a hipótese de que deveria haver uma "espécie de ratio" neste processo do caminho da verdade em Lacan e, foi por esta ponta de preocupação que iniciei a minha quarta leitura dos Seminários, naquele momento, introduzindo referências dela no computador. Lembro que naquela época havia saído o Clipper Summer e eu adquiri uma licença para trabalhar com ele, construindo um bando de dados muito simples que visava armazenar as minhas fichas de leitura daquela empreitada. Os movimentos e mudanças foram muitos e, quando me dei conta, ainda em um processe errático e inconsciente, eu estava começando a colocar Sessões inteiras do Seminário para dentro do computador.

Extamente nessa época eu havia conseguido aprovar um projeto de pesquisa na UNISINOS, no qual eu podia dedicar 20 horas semanais na pesquisa do tema da verdade nos Seminários de Lacan e relacioná-lo com o tema da verdade em Ser e Tempo de Martin Heidegger. Com o projeto aprovado e, com a supervisão do Prof. Dr. Ernildo Stein, durante dois anos eu realizei uma leitura muito dedicada dos Seminários de Lacan e de Ser e Tempo. Quatro foram os resultados desta pesquisa.

Inicialmente um levantamento muito denso dos momentos nos quais Lacan discutia o tema da verdade, seja quando tocava diretamente nele, seja quando se referia de modo lateral, a problemas filosóficos que estão no interior da discussão da verdade, e mesmo quando ele indicava fontes que deveriam ser tomadas como complementares para o entendimento da questão sob uma nova ótica. Tal levantamento resultou em um volume analítico de cerca de 700 páginas que reúnem o "thesaurus", no dizer de Stein, da coisa verdade na psicanálise (imagem a seguir):

O segundo foi o trabalho de base que tive a oportunidade de realizar para o Prof. Dr. Stein, para a organização de suas Seis Conferências sobre a Verdade na Psicanálise, realizadas no Instituto Goethe de Porto Alegre (RS-Brasil). Foram momentos incríveis de trabalho e algumas sessões acabaram por participar, como capítulos, dentro do livro de Stein: Seminário sobre a Verdade: lições preliminares sobre o §44 de Ser e Tempo, agora em uma nova edição, já que a anterior da VOZES está esgotada.

O terceiro resultado manifestou-se na redação de duas comunicações para as duas edições do Simpósio sobre psicanálise e sintoma social, inituladas: (A) A possibilidade de macroproposições na teoria de Jacques Lacan e (B) Do porque nada funciona, ambas publicadas nos livros do evento, coordenados pelo filósofo e psicanalista Prof. Dr. Mário Fleig.

O quarto e último significava que eu tinha então uma base de dados dos Seminários de Lacan que me permitiam pesquisar, analisar e tomar resultados totalmente novos em relação aos que eu conhecia até então.

Foi então, quando conheci pessoalmente a Profª. Drª Elisabeth Roudinesco e pude conversar longamente com ela sobre seu trabalho e lhe apresentar as minhas idéias e pesquisas que vim a saber que outros dois pesquisadores psicanalíticos também estavam trabalhando com ferramentais computacionais para pesquisar e desenvolver com mais detalhes as perspectivas internas do caminho lacaniano. Eram eles: Jacques Siboni e Henry Krutzen, grandes pesquisadores franceses que se dedicavam a classificação dos Seminários, a sistematização de sua topologia e a indexação de sua matematização, tal como eu.

Muito bem, este é um resumo provisório, para o qual ainda terei elementos a acrescentar, tais como a participação e ajuda de muitos colegas, alguns na época alunos, em várias atividades que envolviam a leitura e a classificação das fontes textuais. Estou estudando em fazer isso no Blog associado futuramente ao Banco de Dados (Setembro de 2008).

Idéia geral do Banco de Dados

A retomada aqui da idéia do Banco de Dados possui sua inspiração em duas fontes: a primeira delas pode ser encontrada no livro de Lucia Santella, Matrizes da linguagem e pensamento, quando a autora aplica sobre objetos hipermídias a metodologia das ciências cognitivas e da semiótica na busca de uma classificação e entendimento das mesmas. A segunda, em Lev Manovich, em seu livro The Language of New Media, no qual, dentre outras coisas muito interessantes, propõe pensarmos a WEB como um gigantesco banco de dados. Particularmente eu estou trabalhando (muiiito devagar e, sem pressa alguma) em um texto que realiza a fundamentação conceitual do banco e, ainda mais, tal como outros objetos hipermídia de colegas na WEB, propõe a expressão gráfico-visual do mesmo ao modo da estrutura visual e lógica da teoria das redes e grafos lógicos.

A idéia geral do Banco de Dados WEB consiste na organização de um espaço-interface, a partir do qual poderemos realizar pesquisas em uma base de dados indexada conforme os pontos: (1) autor, (2) referências Bibliográficas (título da Obra, ano de publicação, ano real de edição, Editora, Cidade, ISBN, ISBN-13, ISSN, número de páginas), (3) conceitos associados às Fichas (por meio de uma estudo e classificação a partir de uma lista de conceitos), (4) relações temáticas com outros autores e comentadores, (4) fotografias, (5) objetos topológicos, (6) vídeos, (7) áudios, ... (por enquanto).

Imagine que você precise realizar uma pesquisa dentro da Obra de Lacan para saber como se estrutura um deterninado conceito nela e como se processa a evolução deste mesmo conceito. O banco ajudaria você esta tarefa. Ainda mais, estando na WEB e permitindo a consulta e introdução de verbetes por outros colegas cadastrados, ele se tornaria um poderoso e móvel instrumento para pesquisa, aulas e colóquios nos quais estariam sendo discutidos os conceitos e idéias. Entretanto, ele deve ser visto como um auxiliar da pesquisa intelectual e não como o fim dela.

 

Telas:

Apresento algumas das Telas Gráficas a partir das quais estamos discutindo a questão do Banco de Dados. Ao mesmo tempo que elas são provisórios e se constituem em meros esboços, elas nos ajudarão a pensar, tanto a lógica, bem como a estrutura da interface que dará o ton da possibilidade da pesquisa e seu retorno.

Tela 01:

A Tela 01 apresenta a tela proposta para a arrancada da pesquisa. Os ícones delimitam as escolhas de pesquisa:
(1) pesquisa textual;
(2) pesquisa de objeto topológico;
(3) pesquisa de imagem e/ou foto;
(4) pesquisa de vídeo e/ou áudio.

Tela 02:

A Tela 02 apresenta a tela de entrada de dados para a pesquisa textual.

Tela 03:

A Tela 03 apresenta a organização da pesquisa topológica. Cada ícone representaria um objeto topológico que seria procurado no banco de dados, seja na forma de imagem e/ou animação, seja na forma de entrada textual ou referência indireta no texto.

Tela 04:

Esta tela apresenta a interface da consulta, na qual temos os campos: (A) Autor, (B) Ano Real da Publicação, (C) Título da Obral a que pertence o fragmento; (D) O corpo do texto da Ficha de Leitura e, (E) dois campos para os registros possíveis do s ISBN e ISSN. O desenho é incpleto e deixa escpar uma parte importante, a saber, o conjunto dos conceitos associados ao texto, as referências cruzadas com outros autores e textos, etc. Tais pontos serão objeto de estudo detalhado.

Na parte de baixo da tela temos a presença de vários ícones que reproduzo a seguir:

Ora, da direita para esquerda, temos:

(A) videos: no qual se poderá obter a lista de videos disponíveis para o conceito que chamou a ficha;
(B) fotos: no qual se poderá obter a lista de fotos disponíveis para o conceito que chamou a ficha;
(C) topologia: no qual se poderá obter a lista de objetos topológicos disponíveis para o conceito que chamou a ficha;
(D) relações: no qual se poderá obter a lista das relações conceituais disponíveis para o conceito que chamou a ficha - particularmente a partir da ficha considerada em si mesma;
(E) pesquisa: no qual se poderá realizar uma nova pesquisa;
(F) salva ficha: no qual se poderá salvar a ficha econtrada no banco ou conta particular do usuário, para posterior impressão como documento Flash Paper;
(G) seu banco: no qual o usuário do banco de dados poderá realizar a manutenção de sua conta no banco de dados, exportar as fichas como arquivo Flash Paper, armazenar listas de pesquisa, publicar pesquisas para outros usuários e, talvez introduzir alnotações.

Finalmente por enquanto:

A idéia e o planejamento do Banco de Dados ainda se encontra nos seus começos. Uma análise mais aprofundada, baseada em discussões com a equipe de trabalho certamente irá refinar em muito a proposta inicial e, certamente avanças sobre pontos ainda obscuros. É exatamente isso que se espera de um trabalho que teria por tese ser colaborativo. Esperemos.

Prof. Dr. Luís Carlos Petry, em Setembro de 2008